O passageiro da executiva sumiu
As empresas apertaram os cintos,
reduziram os gastos e as companhias aéreas estão sentindo a turbulência
Há três meses, num rompante de plebeu, o príncipe William, herdeiro do trono
inglês, anunciou que começaria a viajar de classe econômica para cortar custos.
O gesto, por mais singelo que pareça, simbolizou muito da atual situação
mundial: se até o príncipe de um dos países mais ricos do mundo está
economizando em passagens, imagine os pobres mortais. As principais companhias
aéreas, contudo, não precisaram imaginar - elas estão sentindo no bolso o
reflexo dessa situação.
Dados da International Air
Transport Association (Iata) mostram que o número de passageiros que voava de
executiva e primeira classe caiu 22% desde abril de 2008 e a previsão é de que
caia ainda mais (ver gráfico na pág. ao lado). A situação ficou tão ruim que a British Airways, companhia que
sempre apostou no serviço premium,
chegou a pedir a seus funcionários que trabalhassem de graça por um mês para
conter as dívidas que chegam a 420 milhões de euros.
"Estamos fazendo promoções como vender duas passagens de executiva
pelo preço de uma, mas em alguns locais a concorrência chega a níveis
irracionais", disse à DINHEIRO Patrick Fehring, porta-voz da British Airways. Para as empresas aéreas essa questão é crucial,
pois o custo de um voo normal se paga com a classe executiva
cheia. Estes passageiros correspondem a cerca de 9% do total de pessoas, mas
são responsáveis por 30% do faturamento.
Por trás desse apagão na venda de passagens executivas se esconde a
crise que afetou os clientes corporativos. Eles apertaram os
cintos e os passageiros sumiram. "Com a crise, as políticas para
viagens se tornaram mais restritivas", diz Daisy De Marco, gerente de
vendas da Carlson Wagonlit,
agência especializada em viagens corporativas. "É natural que se corte. Em
algumas empresas, os gastos com viagens estão entre os maiores", completa
Daisy.
A mineradora Vale, por exemplo, que antes permitia que seus funcionários
emitissem passagens na classe executiva com facilidade, resolveu fechar a
torneira. "Agora até os diretores estão viajando de econômica", diz
uma fonte próxima à empresa. Mesmo empresas em franca expansão, como a Alog,
especializada em servidores corporativos, que pretende faturar R$ 85 milhões,
um crescimento de 30%, resolveu cortar custos. A companhia reduziu o número de
viagens pela metade e as passagens na classe executiva tornaram-se raridade.
"Analisamos caso a caso a necessidade de viajar de executiva",
conta Emanuel Dutra, diretor financeiro da Alog. Uma pesquisa realizada pela
agência de viagens Tour House com 200 executivos
revelou essa nova ordem no mundo corporativo. De acordo com os dados, 42% dos
executivos disseram que só autorizariam viagens em casos de extrema necessidade
e 37% revisaram as políticas de viagens para economizar mais.
Na ponta da cadeia, as empresas aéreas sentiram o baque. A British Airways anunciou que
pretende deixar 16 aeronaves estacionadas para economizar combustível e reduzir
gastos com pessoal. A portuguesa TAP perdeu 6% dos passageiros de classe
executiva e a australiana Qantas anunciou que quer
aumentar a oferta de assentos na classe econômica. "A solução é viajar com
gastos controlados", diz Amadeu Stevão, da
Amadeus Tours, agência especializada em viagens corporativas. Bem antes da
crise econômica, a Totvs, empresa que produz softwares
de gestão empresarial, já restringia o uso de passagens na classe executiva.
Dos seus nove mil funcionários, apenas cinco diretores têm direito a
voar nas classes premium e a
prática ficou ainda mais rígida. "Enviamos e-mails discretos a quem viajava
muito, alertando que temos outros meios, como as teleconferências", diz
José Luiz Rogério, diretor financeiro da Totvs. Não é
à toa que as classes executivas andam vazias.
Link: http://www.terra.com.br/istoedinheiro/edicoes/615/artigo144367-1.htm
Fonte: Isto É Dinheiro
Data: 17/07/2009